quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Ainda no salão.

"Teu segredo é tão parecido contigo que nada me revela além do que já sei. E sei tão pouco como se o teu enigma fosse eu."
Clarice Lispector
 
Eu sempre soube muito bem lidar com sentimentos torpes que por vezes vinham me visitar. Os chamava carinhosamente de “apaixonites”, papai sempre dizia que era gripe de amor, e que era só sentar e tomar um bom chá que ela passava. No entanto, eu pressentia que somente uma xicara de chá não iria curar-me e que ia ser bem difícil lidar com que estava por vir. Estava sempre rodeada de gente, mas era como se eu fosse surda, as vozes em meus pensamentos não podiam se complementar, nem nos meus pensamentos, muito menos fora deles.
Ainda por cima, eu tinha dificuldades em olhar para você. Além de me deixar surda, a visão dele em meus olhos cegavam meus pensamentos. Há em ti, portanto, ares de hipnose. Sentimentos fluidos talvez, ou simplesmente alucinação.
Após a dança ele sumiu da minha visão, do meu olfato. Já não conseguia sentir teu perfume instigante. Estava só novamente. Bem, realmente só eu não estava, meu noivo enfim havia chegado ao baile, estava atrasado como sempre, mas eu nem ligava mais, seus atrasos eram tão dele, que já estavam impregnados nas roupas que usava.
“- Amélia, Amélia! O que faz aí no meio do salão meu amor?”
Acordei do transe enfim, não estava mais surda. Os sentidos haviam retornado. Sai cambaleante ao seu encontro.
“- Desculpe o meu atraso, mamãe novamente estava indisposta, e até agora eu procurava um médico. Onde estão seus pais? Preciso apresentar-lhes uns amigos influentes!”
E sai arrastada por Heitor, cambaleante, mas com o coração mais leve.


terça-feira, 25 de janeiro de 2011

A Dança.

"Minha fantasia ultrapassa tua dança e a miúda sede do teu corpo não passa de veículo mecânico, alheio, involuntário do divino ou demoníaco"
Caio Fernando Abreu



O Baile era de máscaras, o ano era 1900, e meu coração disparava ao olhar a sacada do palacete e me deparar com a sombra daquele que eu tanto esperava. Era ele enfim, com todo esplendor e brilho, perfume exalando, era cheiro de novas conquistas.
E ali eu estava sozinha a sonhar com um moço como aquele. Não, eu não queria mais estar com mais ninguém, porque ninguém me fazia sentir o que naquele momento eu sentia.
Eu sabia, que entre as tantas moças da festa, seu olhar, nunca compartilharia com o meu, um mesmo horizonte. Por isso sozinha eu estava, só a te observar, a ver teu dorso de cavalheiro a desfilar pelo salão. As máscaras de todos ganhavam vida e compartilhavam do mesmo espanto, pois nunca uma criatura tão graciosa e elegante, como o voar da águia, havia pousado por ali.
De repente, não mais que isso, um calafrio afrontou-me a espinha, ouvi teus passos na minha direção, ouvi meu coração, que batia tão alto quanto teus passos em meus ouvidos. Era você. Só você, que me fazia sentir daquela forma.
E num devaneio, tiraste-me para dançar.
E dancei, dancei... só disto pude dar-me conta. Voei contido nas valsas de nossa época. Dançamos. Ouso em dizer; flutuamos. Não existia mais ninguém naquele salão, só eu, você e a música que nos embalava como criança em colo de mãe. E o meu olhar era só teu. E eu não tinha mais domínio sobre os meus pensamentos, nem sobre o meu corpo, que você guiava tão perfeitamente pelo salão.
E esse foi o inicio. Era só o inicio.





segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

Revirando as gavetas da minha Psicologia!

TRANQUILIDADE INTENSA*

Andressa Virgínia Mesquita Pinto

Preocupa-me a inconveniência da vida ser algo tão passageiro e tão intenso. Para mim ela devia ser algo que possamos saborear com cuidado, passageiro sim, mas leve e delicado, para que possamos entender seus mistérios e seus segredos. Diz-se ainda que o grande evento da vida seja a morte. Quão bom seria se pudéssemos assisti-la de perto, conversar com ela. Mas nada mais importa se somos obrigados a correr contra o tempo. Viver na intensidade! O mundo contemporâneo só nos tem dado isso de presente a humanidade.
Essa intensidade é tão passageira quanto à tranquilidade de um dia nublado. Ressalto que a vida poderia ser mais lenta, ou que nós poderíamos ter um “controle remoto” para podermos avançar na intensidade, ou levitar na tranquilidade. Tranquilidade este que me remete aos eventos da infância, onde uma rede armada nas árvores do quintal era a minha maior alegria, onde as redes sociais da Internet não me tomavam tanto tempo e onde vejo minha irmã de dez anos passar mais de seis horas na frente do computador enquanto há tanta vida lá fora. E se fosse para ser assim os eremitas que vagueiam sem rumo esse mundo tão enorme ou os sertanejos que teimam em morar nas profundezas do nosso interior, são de fato pessoas sortudas, pois ainda apreciam a natureza, ainda para ver um pôr-do-sol digno de aplausos.
Todo esse meu desabafo escrito acima veio do incomodo que senti depois que assisti ao filme “Harold and Maud” em que divinamente os ensinamentos de vida passados são a minha grande inspiração para este ensaio vivencial. Confesso que inicialmente achei estranha a proposta do filme, principalmente as diversas tentativas de suicídio de Harold, mas quando a personagem (que é uma figura, diga-se de passagem!) Maud entra no contexto do filme, tudo passa a ter um sentido especial e aí passamos a compreender tudo, e tudo se encaixa perfeitamente.
Os personagens têm “idades trocadas”. Enquanto um é muito jovem fisicamente, mas com uma mentalidade antiga e sem perspectivas de futuro, a outra é bem mais velha fisicamente mas com um fervor jovial de dar inveja a muitos de nós jovens.
A vida passou rápido para Mead. Mas ela conseguiu enfim realizar todos os seus objetivos tendo total controle de tudo que se passava, parecia que ela tinha o tal “controle remoto” conseguindo sim viver na tranquilidade e ter uma morte serena, mesmo suicidando-se.
Bem é falado, na Teoria Centrada no Cliente o quanto a expressão dos sentimentos é importante na terapia.
Como terapeuta, eu não encorajo a “autocomiseração” ou a “confiança” e nem “reforço” [...]. Encorajo a livre expressão de todos os sentimentos. Minha atitude No é paternalista, nem sentimental, nem superficialmente sociável ou agradável – eu não estou representando um papel. Minha atitude é aberta, positiva, desprendidamente calorosa, sem reservas e sem avaliações. Eu aceito o que é. (WOOD: JOHN, 1994. p.207)
A proposta humanista muito se assemelha a visão transmitida pelo filme. Deixar que em ambiente terapêutico o cliente “esvaziar” os seus sentimentos para que junto ao terapeuta procurar uma saída mais eficiente ao problema exposto.
Ao mesmo tempo eu compartilho como autor o exemplo citado por ele, da aflição de seu estagiário em lidar com situações tão delicadas, que são as situações de “entrar” nos pensamentos de uma pessoa em clima terapêutico. Quem sou eu para ajudar uma pessoa? Porém tenho fé e acredito na força da vida. E tenho certeza que preocupações como esta não mais vão me atingir.
Foi uma grande satisfação poder compartilhar através desses ensaios vivenciais as minhas ideias com você professor. Sinto-me honrada e muito agraciada por saber que você lê não só os meus textos, mas o de toda a turma a fim de nos auxiliamos no melhor caminho a seguir, nessa longa jornada que é o estudo da Psicologia!
Que possamos viver intensamente essa tranquilidade que nos afeta e nos conduz a campos mais férteis, onde a mente e a subjetividade de cada um constrói e desconstrói tudo que vivenciamos!


[1] Estudante de Graduação em Psicologia da UFC – Campus Sobral. Email: andressa.virginia01@yahoo.com.br




*Ensaio Vivencial da Disciplina de Subjetividade I - Professor Carlos Roger 

domingo, 16 de janeiro de 2011

Coisas de Flor Bela...

Ser poeta

Ser poeta é ser mais alto, é ser maior
Do que os homens! Morder como quem beija!
É ser mendigo e dar como quem seja
Rei do Reino de Aquém e de Além Dor!
É ter de mil desejos o esplendor
E não saber sequer que se deseja!
É ter cá dentro um astro que flameja,
É ter garras e asas de condor!
É ter fome, é ter sede de Infinito!
Por elmo, as manhãs de oiro e de cetim...
é condensar o mundo num só grito!
E é amar-te, assim, perdidamente...
É seres alma, e sangue, e vida em mim
E dizê-lo cantando a toda a gente!
 
Florbela Espanca

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

Dor.

Autopsicografia

                                    O poeta é um fingidor. Finge tão completamente Que chega a fingir que é dor A dor que deveras sente. E os que lêem o que escreve, Na dor lida sentem bem, Não as duas que ele teve, Mas só a que eles não têm. E assim nas calhas de roda Gira, a entreter a razão, Esse comboio de corda Que se chama coração.

 Fernando Pessoa



Todo artista sente dor. É uma dor que não se explica apenas se senti. E uma vez sentida nunca acaba... é uma dor perseguidora que atinge o intimo da sua alma e lá se aloja como um parasita. É uma dor inflamada, latejante... ouso até em dizer que essa dor sentida, é viciante.
“Seus sinais, sintomas interferem no comportamento do individuo durante toda sua vida” – disse um médico ao olhar a face colorida do palhaço.
“É vírus? Bactéria?” – perguntaram aflitos os repórteres que entrevistavam o médico.
“Nada disso meus caros, a dor que os artistas sentem, é a dor dos APLAUSOS!”
Essa dor, viciante, aguda e interminável... são os aplausos tão procurados... que como droga elevam o artista a apoteose divina. Elevam ao patamar de deus-humano. É o que eles buscam, a perfeição. 







quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

Um versinho, uma música e um coração.

"É o que me faz ser brilhante!
é o que chama meu coração!
Aquilo que arde e flameja...
Em pequenos versos inacabados
cantar essa dor se ser inacabada!
De ser autêntica
E de ser feliz."







"Baby you're a firework
Come on let your colors burst
Make 'em go "Oh, oh, oh!"
You're gonna leave 'em fallin' down-own-own
Maybe you're reason why all the doors are closed
[...]
So you could open one that leads you to the perfect road
Like a lightning bolt, your heart will blow
And when it's time, you'll know"
 

só para iluminar uma tarde nublada.

#feliz2011 :D