sábado, 13 de agosto de 2011

A Boa Criminosa*

‎"Eu caminho, desequilibrada, em cima de uma linha tênue entre a lucidez e a loucura. De ter amigos eu gosto porque preciso de ajuda pra sentir, embora quem se relacione comigo saiba que é por conta-própria e auto-risco. O que tenho de mais obscuro, é o que me ilumina. E a minha lucidez é que é perigosa."
Clarice Lispector


Saiu do quarto desequilibrada, doente. O mundo girava muito rápido aquela noite, e o sol já despontava no horizonte. O sol era a única testemunha daquele evento. O sol e ela. Ele, já não existia mais, já tinha ido. Não sei pra onde. Não sei aonde vão aqueles que perderam a vida.
No quarto, o cheiro de perfume barato era forte. Ela acendeu um cigarro e foi a cozinha. O vestido de noiva sujo de sangue era observado de longe, jogado por cima do sofá da sala.
A cabeça dela doía. Ela por inteiro estava moída. Ela olhou pelas venezianas da janela, viu que o sol estava a gritar forte, sentiu o primeiro julgamento.

Ela ardia em devaneios. Enlouquecida. Ainda na cozinha abriu todas as bocas do fogão, deixando escapar o cheiro forte do gás. Queria fugir do perfume barato, do cigarro. Foi até a sala, onde ele guardava os discos velhos, que antes, na época das vacas gordas, eram o melhor passa-tempo de ambos. Ouvir discos antigos. Catou um velho disco de Caetano, colocou-o na vitrola quase centenária. Ao som de Caetano, dançou sua última valsa...
O gás já de espalhava sobre o pequeno apartamento. O cheiro já se sentia de longe. Caetano cantava alto e ela também. Quando sentiu-se pronta. Acendeu o último cigarro. Caetano cantava alto, ela gargalhava alto, e o fogo consumia o apartamento. Então fez-se o silencio da música, ouvia-se o choro da dor. Estava acabado. E por fim, não ouvia-se mais som algum... só o do fogo.


Andressa Virgínia 



*Xistes a parte, eu devia a mim um texto cheio de loucuras como esse. E quem disse, que isto é loucura? Pode então ser uma realidade invertida...

segunda-feira, 8 de agosto de 2011

(des)recalque.

Lembrar e esquecer.
Acordar e adormecer.
Recalcar e (des)recalcar.
Vivo destes neologismos bobos, Maria.
Porque viver já é neologicamente possível.
E (des)recalcar, só é de se existir, porque Freud me permitiu.

Andressa Virgínia

terça-feira, 26 de julho de 2011

Em terreno sagrado.

"Mas seus pés tinham a milenar desconfiança da possibilidade de pisar em alguma coisa que se mova — os pés apalpavam a moleza suspeita daquilo que aproveita a escuridão para existir. Pelos pés ele entrou em contato com esse modo de ceder e poder ser moldado que é por onde se entra no pior da noite: na sua permissão. Não sabia onde pisava, se bem que através dos sapatos que se haviam tornado um meio de comunicação, ele sentisse a dubiedade da terra."


Clarice Lispector - Trecho de 'A maçã no Escuro'

sábado, 16 de julho de 2011

sexta-feira, 8 de julho de 2011

As Águias


Chega o dia, um certo momento na vida de qualquer águia, o momento mais emblemático talvez. Em que no topo mais alto, da montanha mais alta, rodeada de nuvens e em total desarmonia com seu corpo cansado, a águia arranca as próprias penas, as próprias garras e o próprio bico. Na tentativa desenfreada de renascer, tal como a fênix.
Amigos não me procurem! Estou nas montanhas! Estou fraca e com dores. Mas não se preocupem. Estou evoluindo. A dor, que por tantas vezes evitei, agora me faz lembrar continuamente de que estou viva, e que necessito arrancar todas as penas velhas, arrancar as lembranças passadas e deixar nascer minhas penas novas, para que assim possa voltar a voar com elegância e graça.
Diante desse processo, arrancar minhas garras, que por tanto tempo ágeis ferramentas, armas de caça que tanto me serviram também se faz necessário. Predadores como eu, que tem que lutar para viver e para não morrer, tem que saber aperfeiçoar suas armas, que por muitas vezes, são a única coisa que restam.
Por ultimo, talvez este processo seja o mais difícil e doloso então. O de arrancar a voz. O de fazer silenciar o grito. De ver cair por terras às palavras cantadas. Arrancar o bico. Arrancar a voz. E nas profundezas da montanha mais alta, do pico mais alto. Mergulhar na evolução. Sentir em carne viva as dores dessa evolução. Saber que o futuro reserva novas andanças, novas desventuras e que este corpo cansado e velho não poderia mais aguentar.
Amigos! Não me procurem! Estou evoluindo!
Para que ao descer da montanha mais alta, eu possa enxergá-los com classe. Para que eu sobreviva a mais intempéries. Para que eu apenas respire. Para que eu apenas viva, reviva, tal como a fênix. 


Andressa Virgínia

quinta-feira, 30 de junho de 2011

Água Viva.

"Tenho coragem? Por enquanto estou tendo: porque venho do sofrido longe, venho do inferno de amor mas agora estou livre de ti. Venho do longe - de uma pesada ancestralidade. Eu que venho da dor de viver. E não a quero mais. Quero a vibração do alegre. Quero a isenção de Mozart. Mas quero também a inconseqüência. Liberdade? é o meu último refúgio, forcei-me à liberdade e agüento-a não como um dom mas com heroísmo: sou heroicamente livre. E quero o fluxo."

Clarice Lispector